PetCenso 2025: o que o ranking realmente mostra

Quem abre o PetCenso 2025 encontra um número que chama atenção: 17% dos cães registrados na base são Shih Tzu. Cinco anos antes, no levantamento de 2020, eram 12%. O Spitz Alemão também chama a atenção por outro motivo. Ocupava a nona posição em 2020 e aparece em quarto lugar na edição mais recente.

É natural olhar para movimentos assim e falar em “raças que mais crescem”. Só que o levantamento não acompanha uma amostra fixa de cães ao longo dos anos nem informa a evolução da população brasileira de cada raça. Ele fotografa os animais cadastrados no ecossistema utilizado pela Petlove em determinado momento.

Isso não torna o PetCenso menos interessante. Pelo contrário: quando lemos o dado dentro de seus limites, aparecem mudanças que a lista de 2025, sozinha, não deixa tão visíveis.

A série histórica disponível permite identificar posições que praticamente não se moveram, raças que avançaram bastante dentro do ranking e outras que desapareceram do top 10. Também revela um caso incomum de estabilidade: o Yorkshire Terrier aparece com praticamente a mesma participação em três momentos diferentes.

O cuidado está em dar nome certo ao que estamos observando.

Primeiro, o que exatamente o PetCenso está contando?

A edição de 2025 do PetCenso foi produzida com os animais cadastrados no ecossistema da Petlove, incluindo e-commerce, hospedagem, Clube Petlove e plano de saúde. Segundo a empresa, a análise reúne mais de 1,8 milhão de pets.

Entre os cães dessa base, o ranking publicado ficou assim:

Posição em 2025Grupo ou raçaParticipação
1ºSem raça definida (SRD)26%
2ºShih Tzu17%
3ºYorkshire Terrier6%
4ºSpitz Alemão5%
5ºLhasa Apso3%
6ºGolden Retriever3%
7ºPinscher3%
8ºDachshund2%
9ºPug2%
10ºMaltês2%

Esses percentuais descrevem a composição da base analisada. A distinção importa porque o nome “PetCenso” pode sugerir, para quem lê rapidamente, algo semelhante a uma contagem completa da população canina brasileira.

A própria metodologia publicada pela Petlove delimita o universo de observação: são pets cadastrados em seus serviços.

Esse universo é grande e permite observar padrões. Ainda assim, um cão só entra nele se estiver representado naquela base. Animais de famílias que nunca utilizaram os serviços considerados não aparecem necessariamente da mesma forma.

Além disso, a composição do ecossistema mudou ao longo dos anos. Serviços foram incorporados, a base cresceu e a Petlove passou a reunir diferentes pontos de contato com os tutores.

Por essa razão, duas porcentagens de anos diferentes podem ser comparadas como fotografias das respectivas bases, mas não devem ser tratadas automaticamente como uma pesquisa longitudinal da população brasileira.

Essa diferença metodológica é justamente o que permite usar os números sem pedir deles uma resposta que eles não foram desenhados para fornecer.

Quando voltamos a 2019 e 2020, quatro trajetórias ficam mais claras

O ranking de 2025 ganha contexto quando deixamos de compará-lo apenas com a memória recente.

O PetCenso 2019, divulgado pela DogHero antes da integração atual do ecossistema, utilizava mais de 1,2 milhão de cães e gatos cadastrados. Naquele levantamento, três grupos já ocupavam exatamente as mesmas posições que aparecem em 2025: SRD em primeiro, Shih Tzu em segundo e Yorkshire em terceiro.

No PetCenso 2020, realizado por DogHero e Petlove, a base canina informada ultrapassava 1,5 milhão de cães. O trio continuava intacto.

Colocando os números publicados lado a lado, a estabilidade das posições esconde movimentos bem diferentes:

Grupo ou raça201920202025O que efetivamente podemos observar
SRD29,4% — 1º32% — 1º26% — 1ºMantém a liderança, mas sua participação oscila
Shih Tzu9,8% — 2º12% — 2º17% — 2ºMantém a posição e ganha participação nas bases
Yorkshire6,1% — 3º6% — 3º6% — 3ºPosição e participação permanecem praticamente estáveis
Spitz Alemãofora do top 109º5% — 4ºAvança fortemente dentro do ranking
Poodle4º4ºfora do top 10Perde presença relativa no grupo das dez primeiras
Buldogue Francês6º6ºfora do top 10Também deixa o top 10
Dachshundfora do top 10fora do top 102% — 8ºPassa a aparecer entre os dez primeiros
Pugfora do top 10fora do top 102% — 9ºRetorna ao grupo de maior participação

Esse quadro conta uma história mais rica do que “as dez raças favoritas de 2025”.

O Yorkshire, por exemplo, oferece um contraponto interessante ao Shih Tzu. Os dois permaneceram durante anos nas mesmas posições, porém seguiram trajetórias distintas dentro da base. O Yorkshire ficou em torno de 6% nas três medições disponíveis. O Shih Tzu partiu de 9,8%, apareceu com 12% em 2020 e chegou a 17% em 2025.

A mudança entre 9,8% e 17% corresponde a 7,2 pontos percentuais. Falar em pontos percentuais é importante porque evita outra confusão comum.

Dizer que a participação passou de 9,8% para 17% descreve o que ocorreu dentro das bases. Dizer que “a população de Shih Tzu cresceu 73%” seria outra afirmação, pois exigiria conhecer números absolutos comparáveis e a população de referência em cada período.

O PetCenso publicado não fornece essa série de maneira adequada para chegarmos a essa conclusão.

Enquanto isso, o SRD segue o caminho contrário dentro das mesmas fotografias: 29,4% em 2019, 32% em 2020 e 26% na edição de 2025. Mesmo com a redução em relação a 2020, permanece com folga na primeira posição.

Não há contradição aí. Liderança e perda de participação podem acontecer simultaneamente.

O Spitz Alemão mudou de posição de um jeito que merece atenção — a causa continua aberta

Poucos movimentos são tão visíveis quanto o do Spitz.

Ele não aparece entre os dez primeiros do PetCenso 2019. Um ano depois, surge em nono lugar. Na edição de 2025, alcança a quarta posição e representa 5% dos cães da base.

Há, portanto, um movimento consistente dentro dos rankings disponíveis.

A partir desse ponto, porém, começam as explicações que parecem plausíveis e que o levantamento não testou.

Seria possível relacionar a ascensão da raça à presença nas redes sociais. Também seria possível sugerir influência de celebridades, preferência por cães pequenos, mudanças na vida em apartamentos ou maior oferta por criadores. Cada hipótese pode até merecer investigação própria, mas nenhuma delas é demonstrada pelo PetCenso.

Preencher a lacuna com uma causa apenas porque ela parece convincente faria o artigo parecer mais completo e, ao mesmo tempo, menos confiável.

O dado seguro termina antes: o Spitz ganhou participação relativa suficiente para sair de fora do top 10 em 2019, chegar ao nono lugar em 2020 e alcançar o quarto em 2025.

A pergunta “por quê?” continua aberta.

Esse limite também vale para Poodle e Buldogue Francês. Ambos ocupavam posições relevantes em 2019 e 2020 e não aparecem entre os dez primeiros em 2025. O ranking registra a mudança, porém não informa se houve redução absoluta no número desses cães, alteração na composição da base ou combinação de fatores.

Dachshund e Pug fazem o movimento oposto. Nenhum dos dois ocupava o top 10 nos levantamentos de 2019 e 2020 usados nesta comparação; em 2025 aparecem em oitavo e nono lugares.

Novamente, isso mostra presença relativa na base. A origem da mudança exige outra pesquisa.

O caso dos SRDs mostra como uma interpretação plausível pode ir além do dado

A Petlove observa em sua publicação de 2025 que os cães sem raça definida continuam na liderança e associa essa presença à adoção e ao interesse por pets únicos.

Há uma relação intuitiva entre SRDs e adoção. Ainda assim, o percentual do PetCenso não informa a origem de cada animal.

Um cão classificado como SRD pode ter sido adotado por uma ONG, recolhido diretamente da rua, recebido de outra família ou nascido na casa de alguém. Sem uma variável que registre essa trajetória, os 26% não medem a taxa de adoção.

Por isso, a afirmação mais sólida permanece mais simples: SRDs formam o maior grupo de cães dentro da base analisada pela Petlove.

Aliás, existe outra particularidade nessa comparação.

“SRD” reúne animais com enorme diversidade genética e física sob uma mesma categoria, enquanto Shih Tzu, Yorkshire, Spitz e as demais aparecem individualmente. Quando os 26% dos SRDs são colocados lado a lado com os 17% de Shih Tzu, estamos comparando categorias construídas de formas diferentes.

Isso não invalida o ranking. Apenas ajuda a interpretar o tamanho da primeira posição com mais cuidado.

A mesma atenção é útil para qualquer ranking de raças: antes de procurar uma explicação social para o resultado, convém entender primeiro como as categorias foram formadas e quem efetivamente entrou na base.

Popularidade também não diz qual cão combina com uma família

Existe uma segunda extrapolação bastante comum, desta vez fora da estatística.

Uma pessoa procura as raças mais populares e acaba usando o ranking como ponto de partida para escolher um cachorro.

Curiosidade é uma coisa; adequação à rotina é outra.

O PetCenso não foi construído para comparar necessidade de exercício, tendência a problemas de saúde, manutenção de pelagem, facilidade de adaptação a outros animais, tolerância ao calor, vocalização ou tempo que cada cão consegue permanecer sozinho.

Portanto, o fato de Shih Tzu, Spitz ou Yorkshire aparecerem nas primeiras posições não oferece evidência de que sejam “melhores para apartamento”, “mais fáceis para famílias” ou adequados a quem trabalha o dia inteiro fora.

Mesmo características frequentemente associadas a uma raça apresentam variação entre indivíduos. Idade, criação, socialização, saúde, experiências anteriores e o próprio ambiente interferem no comportamento cotidiano.

Nesse sentido, o ranking é uma fotografia de frequência, não uma recomendação.

Para quem pensa em levar um cão para casa, perguntas sobre rotina tendem a ser mais úteis: quanto tempo haverá para atividade e interação, quais custos cabem no orçamento, que porte o ambiente comporta e quais necessidades aquele indivíduo apresenta.

A posição de uma raça no PetCenso pode despertar interesse. Ela não resolve essas escolhas.

Então, alguma raça “cresceu” entre 2019 e 2025?

Depende do que estamos chamando de crescimento.

Se a pergunta for quem ganhou posição ou participação dentro das bases do PetCenso, temos respostas.

O Shih Tzu ampliou sua participação publicada de 9,8% para 17% mantendo a segunda posição. O Spitz avançou de fora do top 10 em 2019 para nono em 2020 e quarto em 2025. Dachshund e Pug aparecem no top 10 mais recente depois de ficarem fora nas duas edições anteriores usadas aqui.

Se a pergunta for quais raças aumentaram sua população no Brasil e em quanto, os levantamentos publicados não bastam.

Para responder isso com rigor, precisaríamos de uma série comparável capaz de mostrar números absolutos ou estimativas populacionais por raça, metodologia consistente ao longo do tempo e um universo de referência que permitisse separar mudança real na população de mudança na própria base observada.

O PetCenso tem outra utilidade.

Ele permite acompanhar como a composição de um grande ecossistema de tutores mudou e quais raças ou grupos aparecem com maior frequência em diferentes momentos. Quando a metodologia e o universo são considerados na leitura, essa informação é bastante interessante.

O erro começa quando “ficou mais comum entre os pets cadastrados” vira automaticamente “é a raça que mais cresce no Brasil”.

No próximo PetCenso, olhar apenas para quem ocupa o primeiro, o quarto ou o décimo lugar provavelmente continuará sendo a parte mais fácil. O dado realmente interessante estará no movimento entre as edições — e a primeira pergunta continuará sendo a mesma: estamos comparando populações equivalentes ou apenas duas fotografias feitas com lentes diferentes?

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