Dois cérebros de cães e um cérebro de gato ajudaram a criar uma das manchetes mais repetidas sobre inteligência animal nos últimos anos.
Nos cães analisados, os pesquisadores encontraram aproximadamente 429 milhões e 623 milhões de neurônios no córtex cerebral. No gato, cerca de 250 milhões. A diferença é grande e levou os próprios autores a levantar a hipótese de que os cães examinados teriam uma vantagem em capacidade cognitiva.
Daí até concluir que “a ciência provou que cachorro é duas vezes mais inteligente que gato”, porém, existe uma distância considerável.
O estudo não colocou cães e gatos diante das mesmas tarefas para medir memória, resolução de problemas, comunicação ou aprendizagem. Seu objetivo principal era neuroanatômico: investigar como o número de neurônios varia entre espécies de carnívoros. Além disso, a comparação entre os dois animais domésticos foi feita com uma amostra pequena demais para funcionar como um campeonato definitivo entre espécies.
Essa diferença entre o que foi medido e o que passou a ser dito sobre o resultado é a parte mais interessante dessa história.
O estudo contou neurônios; ele não aplicou um teste de inteligência
O trabalho que costuma aparecer nessa discussão foi publicado em 2017 na revista Frontiers in Neuroanatomy. Os pesquisadores analisaram o cérebro de diferentes carnívoros, incluindo furão, mangusto, gato, cachorro, hiena, leão, urso-pardo e guaxinim.
No caso dos animais domésticos, o artigo original sobre o número de neurônios em carnívoros informa que foram examinados dois cães e um gato.
Um dos cães era mestiço e pesava 7,45 kg; o outro era um golden retriever de 32 kg. O gato utilizado na análise tinha cérebro menor que o dos dois cães.
Os números encontrados no córtex cerebral foram:
- cerca de 429 milhões de neurônios no cão menor;
- aproximadamente 623 milhões no golden retriever;
- cerca de 250 milhões no gato.
Portanto, a frase popular de que cães têm “530 milhões de neurônios contra 250 milhões dos gatos” é uma simplificação baseada aproximadamente na média dos dois cães estudados.
Ela esconde uma informação metodológica importante: não foram examinados centenas de cães e gatos para chegar a uma média representativa das espécies.
Os próprios autores reconhecem a limitação. Para a maioria das espécies analisadas havia apenas um indivíduo; cães e alguns outros carnívoros tiveram mais de uma amostra. O trabalho buscava principalmente comparar regras de escala entre tamanho corporal, tamanho cerebral e número de neurônios, e não estimar com precisão a variação existente dentro de cada espécie.
Mesmo assim, o resultado neuroanatômico continua interessante.
O córtex cerebral participa de processos relacionados a percepção, integração de informações e comportamento flexível. Por isso, a quantidade absoluta de neurônios corticais é considerada pelos autores uma variável potencialmente relevante para capacidades cognitivas.
A palavra importante aqui é potencialmente.
Contar neurônios permite formular uma previsão sobre capacidade de processamento. Demonstrar que essa previsão se traduz em desempenho superior em diferentes habilidades exige outro tipo de experimento.
Os próprios autores não disseram que a disputa estava encerrada
A seção mais reveladora do artigo aparece quando os pesquisadores discutem as implicações cognitivas dos resultados.
Eles propõem que o maior número de neurônios encontrado nos cães sugere uma vantagem cognitiva em relação ao gato. Com base nesse raciocínio, cães daquele porte poderiam apresentar cognição mais complexa e flexível.
Poucas linhas depois, entretanto, o texto estabelece um limite bastante claro.
Os autores observam que faltavam comparações sistemáticas diretas do desempenho cognitivo de cães e gatos e afirmam que uma discussão sobre suas capacidades permaneceria em grande parte uma questão de opinião enquanto esses estudos comparativos não fossem realizados.
Esse trecho costuma desaparecer quando o trabalho vira manchete.
É possível, portanto, manter duas informações ao mesmo tempo sem criar contradição.
A primeira: os cães examinados tinham substancialmente mais neurônios corticais que o gato estudado, e os pesquisadores consideram plausível que isso represente alguma vantagem cognitiva.
A segunda: esse resultado, sozinho, não mede todas as formas de cognição nem demonstra que cães superam gatos em qualquer tarefa que possamos chamar de inteligência.
Há ainda um detalhe curioso no próprio conjunto de dados.
O guaxinim possuía um córtex de massa semelhante ao do gato, mas aproximadamente 438 milhões de neurônios. Já o urso-pardo, apesar de ter um córtex quase dez vezes mais pesado que o do gato analisado, apresentou cerca de 251 milhões de neurônios — praticamente o mesmo número.
Esses exemplos ajudam a perceber por que simplesmente pesar o cérebro, medir o corpo ou escolher uma única característica produz rankings muito diferentes.
“Inteligência” reúne habilidades que não precisam andar juntas
O problema seguinte aparece na própria palavra.
Quando alguém diz que um cachorro é inteligente porque aprende comandos rapidamente, está avaliando uma combinação de aprendizagem, atenção ao ser humano, motivação e resposta a sinais sociais.
Um gato que encontra caminhos eficientes pelo ambiente ou modifica seu comportamento conforme a atenção de uma pessoa está enfrentando desafios diferentes.
Agrupar todas essas capacidades em uma nota única exige escolher antecipadamente quais habilidades terão mais peso.
Na pesquisa de cognição comparada, por isso, os animais costumam ser avaliados em domínios mais delimitados: aprendizagem associativa, memória espacial, cognição física, comunicação social, resolução de problemas e assim por diante.
Uma extensa revisão sobre cognição canina em contexto comparativo examinou justamente essa questão. Os autores compararam cães não apenas com gatos, mas também com outros carnívoros, caçadores sociais e animais domesticados.
O resultado ficou longe da imagem de uma espécie cognitivamente superior em todas as frentes.
Cães apresentam habilidades sociais particularmente interessantes na interação com seres humanos e desempenho forte em algumas tarefas espaciais e comunicativas. Em cognição física, entretanto, outras espécies igualam ou superam seu desempenho. Considerando os diferentes domínios, os autores concluem que a cognição canina não parece excepcional de maneira geral quando são escolhidos grupos de comparação apropriados.
Isso não diminui a capacidade dos cães.
Mostra apenas que evolução não funciona como uma prova escolar na qual todas as espécies recebem exatamente as mesmas questões e podem ser ordenadas do primeiro ao último lugar.
Capacidades cognitivas se desenvolvem dentro das demandas enfrentadas por cada espécie e também são moldadas pela história de vida do indivíduo.
Existe ainda um problema de amostragem científica: estudamos muito mais cães
Comparar cães e gatos traz uma dificuldade que passa despercebida quando vemos duas colunas numa matéria dizendo “cães fazem isso” e “gatos não fazem”.
Cães foram estudados muito mais intensamente em cognição comportamental.
A própria revisão comparativa sobre cães chama atenção para essa assimetria. Dentro dos carnívoros, há uma literatura extensa sobre cognição canina, enquanto o volume de pesquisas disponíveis para várias outras espécies é bem menor.
Com gatos, essa lacuna continua relevante.
Uma revisão sobre socialidade de gatos domésticos descreve uma espécie capaz de viver em contextos sociais bastante diversos, com grande variação entre indivíduos. Ao mesmo tempo, os autores destacam limitações e lacunas na literatura disponível.
Isso cria um cuidado metodológico simples: não encontrar uma capacidade em gatos não equivale automaticamente a demonstrar que eles não a possuem.
Talvez a habilidade realmente seja menos desenvolvida. Talvez o teste usado não se adapte bem à maneira como gatos respondem ao ambiente. Talvez simplesmente existam menos experimentos capazes de responder à pergunta.
Pesquisas recentes ajudam a preencher parte dessa lacuna.
Em um experimento sobre comunicação social, por exemplo, gatos receberam uma tarefa que em determinado momento se tornava impossível de resolver. Quando o cuidador estava atento, os animais direcionavam o olhar para ele mais rapidamente e por mais tempo do que quando a pessoa permanecia desatenta. O estudo sobre comunicação felina em tarefas insolúveis sugere que gatos ajustam parte de seu comportamento social conforme a disponibilidade visual do ser humano.
Isso não prova que gatos sejam “mais inteligentes” socialmente do que cães.
Também não deveria ser usado para criar um empate artificial.
O resultado simplesmente amplia aquilo que sabemos sobre cognição felina e mostra por que comparações antigas podem mudar à medida que uma espécie recebe mais atenção científica.
A domesticação também tornou cães e gatos bons em coisas diferentes
Cães e gatos convivem com seres humanos há milhares de anos, mas essa história não seguiu o mesmo caminho.
Cães passaram por seleção intensa em contextos que envolviam cooperação com pessoas: caça, vigilância, pastoreio, proteção e, muito mais tarde, inúmeras funções especializadas.
Gatos se aproximaram de assentamentos humanos dentro de outra relação ecológica, inicialmente favorecida pela presença de roedores e pela tolerância entre as duas espécies. A seleção humana sistemática para funções cooperativas teve peso diferente em sua história.
Uma revisão sobre comunicação visual entre cães, gatos e seres humanos discute justamente como essas trajetórias distintas influenciam a maneira como as duas espécies se relacionam conosco.
Esse contexto ajuda a entender por que cães costumam se sair particularmente bem em tarefas baseadas em sinais humanos.
Contudo, desempenho superior nesse tipo de teste precisa ser descrito pelo que é: melhor desempenho numa habilidade específica envolvendo interação com pessoas.
Se transformarmos isso em “inteligência geral”, estamos escolhendo como medida justamente um domínio no qual milhares de anos de seleção favoreceram os cães.
O inverso também seria problemático. Escolher uma tarefa perfeitamente adaptada ao repertório de caça felino e usá-la como medida universal poderia favorecer os gatos desde o desenho do experimento.
Uma comparação útil exige testes capazes de separar habilidade cognitiva, motivação, percepção sensorial e adequação da tarefa às espécies analisadas.
É muito mais difícil do que colocar um cão e um gato diante do mesmo brinquedo e observar quem resolve primeiro.
Até a facilidade de treinamento pode ser confundida com inteligência
No cotidiano, cães frequentemente parecem mais fáceis de treinar, especialmente quando a tarefa envolve responder a comandos humanos.
Isso é uma característica valiosa. Ainda assim, aprender rapidamente aquilo que uma pessoa deseja não esgota o conceito de cognição.
Um experimento depende da motivação do animal para participar, da recompensa utilizada, da familiaridade com a situação e da forma como o problema é apresentado.
Se um cão executa repetidamente uma tarefa por alimento ou interação social e um gato abandona o equipamento, existem várias interpretações possíveis. Uma delas é que o cão compreendeu melhor. Outra é que o gato não encontrou motivação suficiente para continuar.
Distinguir essas hipóteses exige desenho experimental.
É por isso que frases populares como “o gato entende, só não quer obedecer” também merecem cautela. Elas parecem defender a inteligência felina, mas atribuem uma intenção específica sem demonstrá-la.
A recusa em executar uma tarefa não prova compreensão. Da mesma maneira, obediência rápida não prova superioridade cognitiva geral.
O comportamento precisa ser testado de uma forma que permita separar essas possibilidades.
Então, o que podemos afirmar hoje?
O resultado mais seguro começa pelo estudo que originou a discussão.
Nos animais examinados em 2017, os dois cães possuíam consideravelmente mais neurônios no córtex cerebral do que o gato analisado. Os autores entendem que números maiores de neurônios corticais podem favorecer capacidades cognitivas mais flexíveis e, por isso, propuseram uma possível vantagem canina.
Essa hipótese tem fundamento neuroanatômico.
Ela ainda não equivale a uma classificação definitiva de inteligência entre cães e gatos.
Para chegar a algo próximo disso, seria necessário decidir primeiro o que estamos chamando de inteligência, comparar um número muito maior de animais, aplicar tarefas equivalentes em diferentes domínios e controlar fatores como motivação, percepção e experiência anterior.
Além disso, o conhecimento disponível sobre as duas espécies permanece desigual. A enorme literatura sobre cães permite descrever habilidades que talvez ainda não tenham sido testadas da mesma maneira em gatos.
Assim, a pergunta “quem é mais inteligente?” continua sendo ampla demais para o tipo de evidência que possuímos.
Uma pergunta mais produtiva é específica: qual espécie apresenta melhor desempenho em determinada capacidade, quando o teste foi construído de forma comparável?
Às vezes a resposta poderá favorecer cães. Em outros domínios, talvez gatos ou nenhuma das duas espécies se destaque. E haverá perguntas para as quais simplesmente ainda faltam experimentos.
O estudo dos neurônios não perdeu valor por causa dessas limitações. Pelo contrário: ele revelou uma diferença biológica interessante e gerou uma previsão que pode ser testada.
O erro aparece quando uma previsão científica vira placar antes que as partidas tenham sido disputadas.

Carol Jovian é apaixonada por pets e compartilha curiosidades, novidades e dicas sobre o mundo animal no Pets News. Com linguagem simples e conteúdo baseado em ciência, ajuda tutores de cães e gatos a entenderem melhor seus companheiros de quatro patas.
