Mercado pet pode chegar a R$ 81 bilhões em 2026: o que esse número realmente mostra

R$ 81 bilhões é um número grande o suficiente para transmitir uma impressão imediata: o mercado pet brasileiro continua crescendo com força e os tutores estão gastando cada vez mais.

A primeira parte está correta apenas em termos nominais. A segunda exige bem mais cuidado.

A projeção mais recente para 2026, elaborada pela Abempet a partir dos resultados do primeiro semestre, aponta faturamento próximo de R$ 81 bilhões. Em 2025, o setor havia encerrado o ano em R$ 77,96 bilhões. Portanto, se a estimativa atual se confirmar, haverá novamente aumento no valor movimentado.

Só que faturamento maior pode resultar de combinações muito diferentes: mais produtos vendidos, serviços mais caros, mudança para categorias de maior preço, aumento da população de pets ou simplesmente reajustes acumulados ao longo do tempo. Olhar apenas para o total não permite separar essas possibilidades.

Os últimos três anos ajudam a enxergar por que essa distinção importa.

AnoFaturamento do setorLeitura necessária
2024R$ 75,4 bilhõesalta nominal de 9,6% sobre 2023
2025R$ 77,96 bilhõescrescimento nominal de 3,45%, abaixo do IPCA de 4,26%
2026cerca de R$ 81 bilhõesprojeção baseada no primeiro semestre, não resultado fechado

A sequência sobe todos os anos. Ainda assim, os três números não contam a mesma história.

2025 é o melhor exemplo de por que faturamento e crescimento não são sinônimos

Entre R$ 75,4 bilhões em 2024 e R$ 77,96 bilhões em 2025 existe um aumento evidente em reais. Quem olha apenas para a receita pode dizer corretamente que o setor faturou mais.

O contexto econômico, porém, muda a interpretação.

O IPCA fechou 2025 em 4,26%, enquanto o faturamento pet avançou cerca de 3,45%. Isso significa que a receita nominal do setor cresceu menos que a inflação geral medida pelo IBGE.

A comparação não deve ser levada além do que consegue demonstrar. O IPCA mede preços para o consumidor em uma cesta ampla da economia; ele não é um índice específico de preços do mercado pet. Por isso, comparar os dois ajuda a contextualizar poder de compra e ritmo nominal, mas não permite concluir sozinho quantos quilos de ração, consultas ou brinquedos foram vendidos.

A própria Abempet descreveu 2025 como um ano de avanço tímido no volume de vendas e expansão do ticket médio. Essa combinação é bastante diferente da imagem de um mercado crescendo apenas porque milhões de consumidores passaram a comprar muito mais produtos.

Também mostra por que uma manchete com faturamento recorde pode coexistir com sensação de pressão no orçamento.

Um tutor pode gastar mais ao longo do ano simplesmente porque itens recorrentes ficaram mais caros, mesmo sem aumentar a quantidade comprada.

Mais da metade do dinheiro continua concentrada em alimentação

A composição da projeção de 2026 traz outra pista importante.

Segundo os dados do estudo da Abempet divulgados em setembro, pet food deve responder por 52,8% do faturamento total, aproximadamente R$ 42,9 bilhões. Depois aparecem venda de animais, com R$ 8,9 bilhões, e produtos veterinários, com cerca de R$ 8,6 bilhões.

Isso coloca a dimensão do mercado em perspectiva.

Quando se fala em um setor de R$ 81 bilhões, é fácil imaginar que o crescimento esteja sendo puxado principalmente por câmeras inteligentes, acessórios sofisticados, hotéis, planos, roupas ou produtos considerados premium.

Essas categorias existem e podem crescer, porém mais da metade do faturamento projetado continua concentrada em alimentação.

Esse detalhe aproxima o dado da rotina.

Para quem tem cachorro ou gato, alimento é uma compra repetida durante o ano. Pequenas mudanças de preço, quando multiplicadas por milhões de animais e vários ciclos de compra, movimentam valores muito maiores do que uma novidade adquirida apenas uma vez.

A população pet também ajuda a explicar a escala. O estudo de 2026 estima 166,8 milhões de animais de estimação no Brasil, dos quais 62,5 milhões são cães e 33,3 milhões são gatos. O Sudeste concentra 48,2% dessa população.

Portanto, parte do tamanho do mercado decorre de uma característica estrutural: há muitos animais consumindo regularmente alimentos, produtos e serviços.

Isso é diferente de dizer que cada tutor individual passou a gastar muito mais.

A projeção de R$ 81 bilhões ainda pode mudar

Há outra palavra importante na manchete: projeção.

O valor estimado para 2026 foi calculado a partir do desempenho do primeiro semestre. O ano ainda não terminou.

Isso não torna o dado inútil. Projeções ajudam empresas, entidades e o próprio mercado a observar tendências antes do fechamento contábil. O problema aparece quando uma estimativa passa a circular como se fosse faturamento já realizado.

O ano anterior oferece um exemplo próximo.

Em maio de 2025, Abinpet e Instituto Pet Brasil trabalhavam com uma projeção de aproximadamente R$ 78 bilhões para aquele ano. O resultado final ficou em R$ 77,96 bilhões.

Nesse caso, a estimativa foi bastante próxima do fechamento. Ainda assim, a diferença entre os dois conceitos permanece: projeção é uma expectativa construída com os dados disponíveis naquele momento; faturamento realizado só existe depois que o período termina.

O mesmo cuidado deve ser aplicado agora.

Se alguém disser em setembro que “o mercado pet faturou R$ 81 bilhões em 2026”, está antecipando como fato um resultado que ainda é estimado.

A formulação correta é que o mercado pode chegar ou deve chegar, de acordo com a projeção atual.

Essa distinção parece pequena, porém é exatamente o tipo de detalhe que muda a confiabilidade de uma análise baseada em números.

Um mercado maior não garante produtos mais baratos

Também não existe uma relação automática entre crescimento do setor e redução do preço pago pelo tutor.

Em alguns mercados, escala e concorrência podem contribuir para preços menores. Em outros, custos de matéria-prima, impostos, câmbio, logística e serviços pressionam a direção oposta.

No mercado pet, a própria Abempet aponta câmbio e carga tributária entre os fatores que dificultam a expansão. Essa pressão é particularmente relevante em alimentação, justamente o maior segmento, porque parte dos ingredientes e insumos responde a commodities e à variação cambial.

Isso ajuda a entender um fenômeno que parece contraditório apenas à primeira vista: empresas podem movimentar mais dinheiro ao mesmo tempo em que consumidores sentem aumento de preços.

Por isso, o número de R$ 81 bilhões não permite concluir que ficou mais barato cuidar de um animal.

Também não permite afirmar o contrário para todas as categorias.

Uma consulta veterinária, um saco de ração, um serviço de banho e tosa e um acessório eletrônico têm estruturas de custo completamente diferentes. A média do setor mistura atividades que não evoluem da mesma maneira.

Para o tutor, observar o próprio orçamento continua sendo mais informativo do que usar o crescimento geral do mercado como referência.

Se a mesma ração passou de determinado valor para outro, esse dado é concreto para aquela família. Se um serviço ganhou novos concorrentes na região e o preço caiu, a experiência também é real. Nenhum dos dois casos precisa acompanhar exatamente a direção do faturamento nacional.

Os canais de venda mostram que o mercado ainda é muito pulverizado

Os dados mais recentes também ajudam a desmontar outra imagem comum: a de um setor dominado apenas por grandes redes e vendas online.

Pet shops pequenos e médios concentram, segundo a projeção divulgada pela Abempet, 48% do faturamento, aproximadamente R$ 39 bilhões.

Clínicas e hospitais veterinários aparecem depois, com cerca de R$ 14 bilhões, equivalentes a 17,3% do total. Só então entram outros canais, como comércio eletrônico, varejo alimentar, megastores e demais serviços.

Essa distribuição explica parte do que o tutor encontra na prática.

Preço, disponibilidade e variedade podem mudar bastante de um bairro para outro, porque quase metade do dinheiro ainda circula por estabelecimentos pequenos e médios. Ao mesmo tempo, lojas online e redes maiores ampliam a possibilidade de comparação.

O crescimento do mercado, portanto, não acontece em um único balcão.

Ele está espalhado entre alimentação recorrente, atendimento veterinário, milhares de pet shops, venda digital, produtos de saúde e outros serviços. Somar tudo produz os R$ 81 bilhões da projeção; separar as partes mostra por que esse total é insuficiente para descrever sozinho a experiência de quem compra.

O número que merece acompanhamento vem no fechamento do ano

A projeção de 2026 é útil porque mostra que o setor continua movimentando uma quantidade enorme de dinheiro e, até agora, mantém crescimento nominal.

O teste mais interessante virá depois.

Quando o resultado anual estiver fechado, será possível comparar a projeção com o faturamento realizado, verificar o ritmo definitivo de crescimento e colocar esse avanço ao lado da inflação de 2026. Também será possível observar se a composição entre alimentação, produtos veterinários e serviços mudou.

Até lá, R$ 81 bilhões deve ser lido pelo que é: uma estimativa atualizada de faturamento para um mercado muito grande, no qual mais da metade da receita continua vindo de alimentação.

Isso diz bastante sobre a dimensão econômica dos pets no Brasil.

Não diz, sozinho, que o brasileiro comprou mais, que cuidar de um animal ficou mais barato ou que todas as partes do setor estão crescendo no mesmo ritmo.

Essas respostas aparecem apenas quando o número total é aberto — e é justamente aí que a manchete começa a ficar realmente útil para quem tem um pet.

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